Trabalhar após os 50 anos está cada vez mais comum, mas há resistência

Por necessidade, escolha ou sonho, pessoas acima dos 50 anos estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho. Algumas empresas, inclusive, têm programas específicos para atrair mais gente da faixa etária, apesar de muitas ainda terem resistência com trabalhadores mais velhos

20/10/2019 15:33 / atualizado em 20/10/2019 17:16

Pesquisa da consultoria Robert Half concluiu que 69% das empresas não contrataram trabalhadores com mais de 50 anos em 2019. Entre os receios dos recrutadores com relação a esse perfil estão salário alto (31%), pouca flexibilidade (18%), desatualização (12%) e o risco de ampliar conflitos entre gerações (7%). Os 1.161 respondentes também apontaram benefícios de contratar alguém depois dos 50: experiência (86%), conhecimento (66%), resiliência e inteligência emocional (43%) e contribuir para a diversidade da organização (30%).
Em geral, as instituições e os recrutadores precisam se abrir para trabalhadores com perfil sênior, que, muitas vezes, enfrentam grande dificuldade para se recolocar. Apesar dos desafios, brasileiros e brasileiras com mais de 50 anos estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho. Seja pela decisão de continuar trabalhando, seja pela escolha de mudar de ramo de atuação, seja por necessidade de complementação da renda, profissionais seniores enriquem a produção e o ambiente laboral de empresas e órgãos públicos.
A última carta de conjuntura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em setembro, mostrou que a população ocupada com mais de 60 anos cresceu 5,3% em comparação com o trimestre anterior, embora a taxa de desemprego do segmento tenha avançado, no mesmo período, de 4,4% para 4,8%. Na faixa etária entre 40 e 59 anos, a desocupação diminuiu de 7,5%, em 2018, para 7,2% no mesmo período de 2019 (veja mais números na página 6).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de idosos, grupo etário convencionalmente composto por pessoas acima de 60 anos, deve chegar a 25,5% da população brasileira até 2060. Se a reinserção, ou entrada, de pessoas acima de 50 anos não passar a ser uma realidade cada vez mais comum, o país vai enfrentar problema de falta de mão de obra em pouco tempo.
É neste cenário que algumas empresas estão criando programas específicos para contratação de pessoas acima de determinada idade. É o caso da Martorelli Advogados, escritório de advocacia de Recife, em Pernambuco, que, em agosto deste ano, criou o Programa Longevidade, para estagiários de direito com mais de 55 anos. “Percebemos que existiam estudantes do curso com mais idade dentro das universidades, mas que essas pessoas não eram aproveitadas nos escritórios de advocacia”, afirma Victor Rodrigo de Melo Gonçalves, gerente de Recursos Humanos do escritório. “É um projeto interessante, pensando no futuro, com base em dados estatísticos do IBGE, que mostram o crescimento da população com mais de 60 anos no decorrer do tempo”, continua o gerente.
Ele acredita que, para construir um amanhã sustentável em termos de empregabilidade, é necessário começar hoje. “É pela sustentabilidade da própria empresa. Se a gente não começar a trabalhar, de hoje, a cultura de receber e entender que essas pessoas são produtivas, o público de fato ativo para o trabalho vai ser muito pequeno”, argumenta. Foi por meio do programa que Fábia Ribeiro Pinheiro, 56 anos, começou a estagiar no escritório. Ela estuda direito na Faculdade de Ciências Humanas de Pernambuco (FHCPE), instituição particular mantida pela Sociedade Pernambucana de Cultura e Ensino (Sopece). Quando viu o anúncio do projeto nas paredes da faculdade, Fábia desconfiou. “Liguei para a empresa, pensei que era ‘fake’, porque é pioneiro, não tem nada parecido, principalmente na área do direito”, conta a estagiária.
A ideia surgiu após a empresa de advocacia abrir oportunidades para advogados negros, em 2018. “Não chegavam currículos dessas pessoas. Nem tínhamos a oportunidade de entrevistá-las e fazer seleções com elas”, conta o gerente. “Definimos, então, um percentual de pessoas negras que deveríamos ter para criar, de fato, uma sociedade de advogados mais justa e plural”, completa. “E é interessante porque as pessoas com mais idade não têm ninguém que as defenda. Tem gente na causa negra e na LGBT, por exemplo, mas não existem pessoas lutando por essa pauta.” Fábia começou o curso de direito há quatro anos, depois de ser desligada da empresa em que trabalhava e não conseguir se recolocar no mercado. “Comecei, então, a estudar direito, que era um sonho antigo”, relembra.
Ela é graduada em ciências contábeis e fez MBA em gestão empresarial. A trajetória profissional dela, até então, havia sido construída na parte administrativo-financeira. Para Fábia, a experiência na Martorelli Advogados tem sido transformadora. “A equipe é muito seleta, tenho muito o que aprender. Todos me acolheram muito carinhosamente e estão me vendo de maneira natural. É um dos momentos mais felizes que já tive porque estou fazendo algo que amo”, orgulha-se. “É uma quebra de paradigmas enorme. É imensamente agregador e motivador, além de uma grande responsabilidade.” Em relação ao desempenho da estagiária desde que começou a colaborar com o escritório, há cerca de um mês, e à adesão do restante da equipe ao programa, o gerente Victor não poupa elogios.
“É uma pessoa que vem com maturidade, bagagem e vivência. A recepção e a integração estão sendo fantásticas. Boa parte das pessoas que voltam a estudar com essa idade o fazem por um sonho antigo; então, elas vão fazer de tudo para dar certo”, continua. Entre as vantagens de contratar pessoas mais velhas, ele destaca, além do nível de entrega e comprometimento, a maturidade para lidar com situações adversas. “O grau de responsabilidade e compromisso com as atividades delegadas são altos também, porque têm maturidade para entender prazos e demandas.” Para quem está em uma situação parecida com a de Fábia e em busca de reinserção profissional, ela sugere dedicação e esforço.
“É preciso não ter medo de desafios e de se arriscar nem temer o novo. Não se acomodar é o mais importante. É preciso encarar e saber que somos capazes.” Fábia torce para que mais pessoas da idade dela alcancem a colocação que desejam. “É sobre integração, que é o que o Brasil está mais precisando hoje. Inserir pessoas com mais idade é dar uma chance a elas. Temos um potencial muito grande. Quem aposta nisso está investindo em qualidade e experiência”, completa.
Nem todos encontram  a chance que Fábia achou: existe preconceito contra trabalhadores mais velhos. De acordo com Ana Amélia Camarano, coordenadora de Estudos e Pesquisas de Igualdade de Gênero, Raça e Gerações da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não é possível desvencilhar a recolocação profissional da educação. “A maioria das pessoas dessa idade tem qualificação e escolaridade baixas. É importante investir na educação e qualificação desse pessoal, com treinamentos e capacitações”, afirma. Para ela, outros fatores, como gênero, raça e situação socioeconômica, também passam pela discussão da reinserção profissional.
Em estudo ainda a ser concluído e publicado, a pesquisadora aborda o cenário de trabalho de pessoas de 50 a 59 anos sob as lentes raciais e de gênero. “21% das mulheres negras ocupadas nessa faixa etária são empregadas domésticas; 4,8% são cozinheiras e 2,3%, cuidadoras de crianças. Ou seja, 28,1% das mulheres negras estão no serviço doméstico e só 46,9% delas podem contribuir para a seguridade social”, aponta. “Então, como essas pessoas vão entrar em um mercado de trabalho fora do ambiente doméstico?” Em relação às mulheres brancas com alguma ocupação, os números daquelas no serviço doméstico são menores. “11% são funcionárias domésticas; 2% são cuidadoras de crianças e 3,7% são cozinheiras. Cerca de 16% das mulheres brancas estão no trabalho doméstico e 74% delas podem contribuir para a seguridade social.”
As taxas de escolaridade divergem se analisadas sob a ótica racial. “As negras têm 8,5 anos de estudo, enquanto as brancas, 10,11 anos”, afirma Ana Amélia. “Sem educação, dificilmente parte do problema será resolvida”, argumenta. “Precisa capacitar e recapacitar, dar incentivo para que as empresas contratem mão de obra mais velha, a fim de diminuir o preconceito”, destaca.
Antonia Rodrigues, gerente de Projetos e Programas da Divisão de Educação Profissional e Tecnológica do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), concorda. “A reinserção passa pela educação. Se a pessoa está há muito tempo longe do mercado e não busca capacitação, a dificuldade para encontrar uma oportunidade vai ser maior. A perseverança faz diferença”, observa a gerente.
Para a coordenadora Ana Amélia, colocar ou manter pessoas acima de 50 anos no mercado inclui também discussões sobre infraestrutura e logística. “São necessárias melhorias na mobilidade urbana. Investir em saúde também é essencial, além de prover melhores condições de trabalho”, argumenta. “Outra questão é que, quando se mexe em previdência social, o mercado de trabalho é afetado. Idade mínima  de aposentadoria significa trabalhar por mais tempo. Vai ter emprego para todas essas pessoas?”, questiona.
A gerente do Senac afirma que boa parte das pessoas acima de 50 anos busca cursos. “Mais cedo, aos 30 ou 40 anos, muitos ainda procuram mudanças na carreira por decisão”, compara Antonia. “Aos 50 anos, boa parte das pessoas já quer se aposentar. Muitas, porém, voltam aos bancos escolares para ter uma aposentadoria melhor”, observa. “Tem casos de escolha, mas são menores. A maioria é por perda de emprego ou necessidade de colaborar com a renda da família.”
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/trabalho-e-formacao/2019/10/20/interna-trabalhoeformacao-2019,799360/trabalhar-apos-os-50-anos-esta-cada-vez-mais-comum-mas-ha-resistencia.shtml

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